Nota de Intenções

"Na vida existem várias experiências pelas quais passamos. Há quem diga que recordaremos com mais afectividade e rigor aquelas por que passámos na infância e na juventude. No entanto, a lembrança pode ser sinónimo de alegrias ou desgostos. São muitos os jovens que actualmente não se sentem bem consigo mesmo. Muitos não conseguem explicar o que sentem. Muitos desejam nem sequer pensar na escola que os atormenta. Esta é a história de muitas vidas de estudantes portugueses.

O bullying, acto de violência física ou psicológica, praticado de forma intencional e continuada, é um dos problemas que mais afecta as escolas nacionais. O presente documentário pretende acompanhar vários jovens do ensino secundário e ex-vítimas de bullying, que aceitam revelar o seu dia-a-dia, que de vez em quando é atormentado pelas recordações de um passado muito próximo. As perseguições e agressões físicas ou verbais do passado continuam presentes nas suas vidas.

Várias consequências reflectem-se no quotidiano. Uns conseguem ultrapassar pacificamente as recordações e outros, simplesmente, deixam de se socializar e isolaram-se em “escapes”. Em todas as situações serão apresentadas as atitudes actuais. Mais do que tratar o passado, pretende-se mostrar as sequelas do presente. Como agem, o que fazem, com quem se dão e como vivem em casa, na rua e na escola, e sobretudo o que sentem. Uma realidade que pode até levar ao suicídio. Esta é a estreita e complicada linha de várias vidas.

Muitas histórias serão comuns a outros jovens. Mas o que se pretende, acima de tudo, é mostrar, através de exemplos e consequências, quem sofre ou sofreu de bullying. Por outro lado, o documentário pretende apresentar soluções tal como a existência de uma linha de apoio à vítima de bullying (ANP), pois só assim se poderão apoiar futuros jovens, vítimas deste problema, mas sem cair em moralismos.

Deixar que as imagens evidenciem o que certamente custará dizer por algumas vítimas será a atitude a ter em conta e que, certamente, valorizará o processo artístico e criativo. Para isso, será escolhido um discurso natural, em que os movimentos desencadeados são puros e naturais, e que, juntamente com a luz e a câmara, contribuirão para a acentuação de uma ambiência de solidão ou de ritmo desenfreado. Utilizar uma linha realista é a tarefa mais importante de todo este documentário, que apesar de contar com alguns momentos fictícios, não deseja participar numa ideia de bases televisivas. Por outro lado, deseja-se integrar todas estas vidas na Sociedade contemporânea e questionar até que ponto estas foram, ou não, fruto de uma mesma sociedade individualista, decadente e frenética, em que o espírito de partilha não é fomentado.

Pretende-se levar o espectador a entrar neste mundo, em que o medo, a depressão, o desespero e o vazio são uma constante, e de modo a que o problema consiga ser travado. Para isso, todos os pormenores evidenciados pelas personagens serão captados, de modo, a que a atmosfera presente seja realista, e não exageradamente dramática. Neste aspecto, o respeito e a responsabilidade serão deveras importantes, para que as próprias personagens se sintam entusiasmadas com esta curta-metragem, de fins educativos/sociais.

Finalmente, é importante entender que a potencialidade e a força persuasiva, que o presente documentário pode ter na divulgação do tema e na confrontação que a sociedade deve necessariamente ter, pode ser usada como arma de uma boa “propaganda” contra este fenómeno, que, infelizmente, já começa a atingir os próprios adultos, no local de trabalho.

A brincadeira não tem graça e leva a linhas desnecessárias."